Centro de Vida Independente Araci Nallin.

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Minha Trajetória Escolar.

 

Por Gisela Bordwell*

Sou Gisela Bordwell. Fiquei deficiente devido à anoxia de parto, o que me acarretou dificuldade de fala, déficit de movimento em uma das mãos e em uma perna.

Passei por um teste psicológico, aos cinco anos de idade, no qual meu quoeficiente de inteligência foi avaliado acima da minha idade cronológica. Fator esse que me fez ser encaminhada para uma escola motessoriana. O método não exigia do aluno cadernos lotados, mas fazia uma avaliação pelo conteúdo testado em provas, as quais eu realizava apenas com a diferença de maior tempo para finalizar.

A minha escrita era bastante lenta. Ao realizar as provas, minhas mãos transpiravam a ponto das folhas ficarem úmidas. Isso se dava devido a minha dificuldade motora, sentia que meu esforço era grande mas valia a pena.

Desde pequena mostrava grande interesse em acompanhar as outras crianças nas brincadeiras, na hora do recreio. Na escola de freiras que cursei o jardim da infância e o pré-primário havia um escorregador de quase três metros de altura. Na época estava na faixa dos seis anos. Recordo-me que uma coleguinha de classe subia na minha retaguarda, como se sua presença fosse me proteger no caso de eu me desesperar e perder o equilíbrio. Então, eu me soltava no escorregador me envolvendo na brincadeira. Também no recreio havia uma lanchonete onde a maioria das crianças adorava saborear o famoso bauru que lá era vendido. Como as outras crianças fiquei com vontade de saborear aquele lanche. Um certo dia, minha mãe me deu o dinheiro no valor e lá fui eu para mais uma aventura. No momento em que a garçonete colocou o bauru na minha mão, ele se abriu caindo à metade pelo chão. Recordo-me de ter sentindo uma sensação de fracasso o que me levou a um choro compulsivo. Algumas pessoas se aproximaram a fim de me socorrer. Com o tempo fui aprendendo a lidar melhor com situações feito essas.

A minha classe se localizava no terceiro andar do prédio. O corrimão da escada ficava bem acima do meu tamanho Às vezes alguma coleguinha manifestava a vontade em me ajudar a subir. A Madre Superiora, presenciando aquela cena, dizia à criança que me deixasse subir sozinha, pois dizia que acreditava na minha capacidade. Com essa atitude ela estava desenvolvendo a minha autoconfiança.

Nos meus primeiros anos escolares, a minha via de acesso era a perua escolar, a qual passava muito cedo em minha casa. Em vista disso, sentia muito sono durante a aula. Os alunos montavam ditados em pequenos tapetinhos. Eu colocava um deles esticado no meio da classe e adormecia sem a menor vergonha.

Refiz a primeira série até a oitava na Escola Experimental Irmã Catarina, localizada no bairro da Aclimação. A minha primeira professora nessa escola foi uma simpática moça chamada Ana Maria, a qual me tratava com muito carinho e dedicação. Sempre me apoiava nas tarefas em sala de aula, acreditando na minha capacidade e me integrando com o grupo.

Havia uma escada enorme, em forma de caracol. A minha classe ficava no piso superior. Meu pai me deixava muito cedo na classe, por causa do seu horário de serviço. Um dia resolvi descer as escadas, por azar o cordão do meu tênis estava desamarrado, perdi o equilíbrio e rolei escada abaixo. Foi um susto grande, finalmente consegui ficar sentada e descer devagar. Não havia ninguém em todo prédio. Toda manhã eu ficava sozinha durante um bom tempo até que alguém aparecesse. Depois de certos meses meus pais começaram a ficar preocupados, com medo que eu fosse raptada, então minha mãe decidiu tirar carteira de motorista, e me levar à escola no horário certo de entrada.

Nas séries restantes do primário e ginásio contava sempre com a colaboração da minha mãe, pedindo o caderno emprestado para alguma coleguinha para copiar o que eu não conseguia em sala de aula. Nas provas eu tirava notas razoáveis, e nunca repeti.

As crianças me aceitaram bem, até o ginásio, quando as diferenças começaram a aparecer na parte social. Na quinta série, a professora era a tia Celeste, na matéria de português solicitava aos alunos que decorassem poesias. Lembro-me uma vez em que ela pediu para decorar “Os meus 8 anos”. Eu tinha uma facilidade muito grande de memorização. Em vista disso, ela me pediu para declamar à diretora da escola. Eu fiquei um pouco nervosa porque a minha fala saia com dificuldade como até hoje, mas eu consegui responder às expectativas de todos e mostrar a minha força de vontade em superar as barreiras.

Em todas as séries do ginásio, o sistema de trabalho era à base de fichas, onde havia períodos de aulas, que se chamava trabalho pessoal. Os alunos escolhiam as fichas das matérias dadas, e faziam-nas, mas havia um prazo para terminá-las, que geralmente não correspondia com a minha agilidade motora. Então a professora me adiantava copiando algumas fichas, ou eu pedia o caderno emprestado e minha mãe copiava em casa.

A primeira escola que procurei para fazer o colegial era no Ipiranga. Era uma escola muito rígida e preconceituosa. Prestei o vestibulinho, mas nem mesmo chegaram a corrigir a minha prova e já disseram que não haveria vaga para mim, pois afirmaram que não iria conseguir acompanhar o ritmo acelerado da escola. Nessa escola certamente, não havia nenhum aluno deficiente, caso contrário a postura dos profissionais seriam bem diferente, pois quando se tem um contato maior, sempre aquela primeira impressão é quebrada e acontece a inclusão. Minha família e eu ficamos sem saber o que fazer, mas logo em seguida a diretora da escola onde eu fiz o ginásio indicou o Colégio Maria Montessori em Moema. Fui com minha mãe fazer uma entrevista com a diretora do Colégio, ela sugeriu que levasse um gravador para gravar as aulas.

Logo no primeiro dia de aula, cheguei em casa chorando muito, porque não consegui sentir identificação nenhuma com a classe e naquela época eu necessitava muito da aprovação e aceitação das outras pessoas, mas graças ao apoio da minha mãe não desisti e enfrentei as dificuldades que a vida me apresentava.

Com o passar do tempo percebi que não havia necessidade do gravador, pois aquilo que não conseguia copiar da lousa, pedia o caderno emprestado de alguma menina para tirar xérox. Quando tinha prova, estudava a matéria pelo xérox.

Eu tinha uma certa dificuldade em matemática, física e geometria. Quando a dificuldade era muita, estudava com meu pai. Passávamos finais de semanas inteiros estudando, de manhã até a noite, em compensação efetuava as provas com tranqüilidade.

Depois disso fiquei alguns anos em casa, sem atividade nenhuma. Era muito chato, pois não tinha idéia do que gostaria de fazer em termos de faculdade ou de qualquer curso. Foi uma época de indecisão e de introspecção comigo mesma.

Em 1988 resolvi fazer Cursinho Universitário para entrar na faculdade. Fiz um ano de Cursinho. Até então não pegava ônibus, pois minha mãe achava muito perigoso, pelo fato do equilíbrio ser bem comprometido; mas um belo dia tive coragem de voltar do Cursinho de ônibus. Embarcava na estação Santa Cruz do metrô, onde era ponto final, fácil de subir. Acomodava-me no banco da frente, assim ficava tranqüila para descer. Essa coragem surgiu da necessidade de sair de casa Já não suportava mais ver os dias, meses e anos se passarem, e nada acontecia. Porém não sabia que essa mudança teria que ocorrer dentro de mim, e só iria acontecer a partir do momento em que eu me permitisse entrar em contato com as minhas dificuldades tipo, um receio muito grande de perder o equilíbrio no momento em que o ônibus partisse no caso de não haver onde me sentar para que eu me sentisse segura. No começo eu só voltava de ônibus, depois com o tempo fui tendo coragem e confiança em mim mesma até ir a qualquer lugar de São Paulo. Foi uma conquista que me trouxe uma satisfação enorme, mas ainda não era tudo.

Prestei vestibular para psicologia, na Universidade de São Paulo - USP . A prova foi feita numa classe só com pessoas portadoras de deficiência. Achei estranho, mas por outro lado havia cadeira e mesa que facilitava a minha escrita. Não estava bem certa de que essa seria a carreira ideal, pois iria ser obrigada à clinicar, e com certeza não era essa minha maior vocação.

No começo do ano de 1991, uma vizinha que tinha um filho, também com paralisia cerebral, me convidou para conhecer a escola que ele freqüentava. Era uma escola formada pelos pais dos alunos com deficiências diversas. O Trabalho feito era bem interessante, pois as crianças eram muito comprometidas. Os profissionais usavam um método chamado Blis, onde os alunos que não tinham movimento de braço, apontavam as letras com os olhos numa tábua de madeira onde havia o alfabeto de A a Z até formar uma palavra. Também havia um trabalho de pintura em tecido, que as crianças com uma coordenação razoável faziam.

Nesse mesmo ano, resolvi acompanhar um programa na TV, chamado vestibulando e na metade do ano prestei vestibular para Pedagogia na Faculdade São Marcos. A prova foi realizada em uma sala particular onde fiquei tranqüila, com um tempo maior para realizar a prova, mas não foi necessário, pois acabei dentro do prazo. Logo depois da prova fui para o Litoral, com uma amiga. Mas no dia marcado para sair o resultado liguei para casa e fiquei sabendo do meu ingresso na faculdade. Fiquei muito feliz; voltei logo para organizar os documentos e providenciar a matricula.

Havia a parte dos estágios na faculdade, que deviam ser cumpridos para complementar o curso. Os primeiros estágios eram de 1ª a 4ª série primária. Fiz num colégio de freiras perto de casa. Nessa faixa etária, as crianças são muito espontâneas, falam as coisas sem maldade alguma e também são muito questionadoras. Logo nos primeiros dias, a reação delas era de curiosidade; queriam saber se eu tinha machucado a minha mão, ou por que eu falava enrolado. Mas depois que acostumavam comigo, me desenhavam junto com a classe e me escreviam cartinhas carinhosas de boas vindas. Foi um contato muito interessante. Também fiz estágio de 5ª a 8ª série e no magistério. Nessa fase as curiosidades já não eram tantas.

 

* Gisela Bordwell - Pedagoga - Secretária do Centro de Vida Independente Araci Nallin.

 

Pensamento:

"Que mundo é esse em que vivemos... onde é mais fácil quebrar o núcleo de um átomo do que um preconceito".

Albert Einstein